Conta-ME Histórias, que EU gosto!… Contas? #12 – DA DÉCADA EM QUE NASCI:60 – DEVANEIOS DA MINHA IDADE DOS PORQUÊS!…


 

© PP - Da idade da inocência - a minha! <3

© PP – Da idade da inocência – a minha!

 

#12 – DA DÉCADA EM QUE NASCI: 60 – DEVANEIOS DA MINHA IDADE DOS PORQUÊS!…

 

Da década de sessenta, apenas vivi os últimos quatro anos. Ainda assim, desses tais atribuladíssimos anos de vida, conta a minha querida e adorada mãezinha que aqui a “IVAN, A TERRÍVEL”, “deu muita água pela barba”, a todos os que dela cuidavam. Reza a história que EU, qual diabinha, parece que só mesmo a dormir, e, mesmo assim “sabia Deus”(!), proporcionava o tão desejado sossego e silêncio, colmatado num suspirado “finalmente-já-dorme”!

– Terá sido esse o motivo pelo qual os meus paizinhos espaçaram tanto a vinda dos meus irmãos? Hum!… Good question!

Bem! Nesse tempo não havia os actuais pruridos da criança hiperactiva; de maneira que os supostos comportamentos desviantes iam sendo controlados, no meu caso, com umas boas e merecidas palmadas no rabiosque; ainda assim, esporadicamente lá iam comigo ao Centro Médico dos Olivais – em Lisboa, local onde residíamos – para que me suturassem as mazelas resultantes da minha ousadia e propensão a acidentes domésticos e outros que tais que nem ao diabo lembra.

– Cachopa terrível! Arrumas um tornado a um canto!… Chupas o veneno das ratazanas porque sabe-te a doce; fazes da tábua cravejada de pregos ferrugentos um excitante escorrega; pões as mãos onde não deves; cortas-te; queimas-te… mutilas-te! Credo! Só mesmo amarrada num colete-de-forças! – Comentavam entre si as comadres que passavam as tardes soalheiras à janela, nas suas casinhas térreas, que incluíam a Quinta da Viscondessa dos Olivais.

Curioso! Não consigo recordar a figura da Viscondessa, todavia perdura na minha memória, em género de registo fotográfico as suas requintadas instalações – o tão falado e sobejado palacete da Viscondessa – que consegui conhecer à socapa, movida pela astúcia, pelo instinto da descoberta, do conhecimento do diferente, já que nós, família de parcos recursos residíamos numa espécie de casa-armazém adaptada, inserida numa espécie de feudo – a dita Quinta.

Assim, lembro: as poltronas e as cortinas rubras, de um veludo indescritivelmente macio; os quadros altos fustigados pelo tempo em molduras doiradas minuciosamente trabalhadas; os castiçais prateados imponentes; a compridíssima mesa ladeada por esculpidas cadeiras forradas em couro. Mas… imperava a escuridão e cheirava a mofo que tresandava. – Porque não escancarariam as majestosas janelas? – Questionava-me.

– Ó criatura de Deus, de onde é que tu surgiste? Onde é que está a tua mãe? Ai se a senhora Viscondessa sabe que aqui estás! Anda, vem daí! Depressa! – Ter-me-á dito esbaforida, uma suposta criada, a avaliar pelo habitual traje que incluía um quepe (parecido com os de enfermeira) e um avental, brancos. E lá foi ela, comigo ao colo, esbracejando com o braço livre e arfando, com um discurso que já não lembro, mas deu para perceber que estaria muito zangada e até preocupada. E eu? Bem, eu enfiei o dedo na boca e enverguei aquele ar de vítima de l’enfant terrible, que resultava sempre, na perfeição.

– Devia ter mais olho nela! Um dia destes ainda lhe foge sem dar conta – retorquiu a serviçal, ao passar-me para o colo da minha mãe, como que a recriminar a desatenção.

– Pois é! É uma malandreca que faz das dela pela calada. Está na idade dos porquês, percebe? – Ripostou a mamã, acenando a cabeça, encolhendo os ombros e revelando um fácies sugestivo de um: “o que é que se há-de fazer?!”

– Então “princesa”? Queres ir com o teu pai receber os fiados, ou vens com a mãe à Praça? – Perscrutava-me, sorrindo, olhando de soslaio, como que já a adivinhar a minha resposta. Claro que optava ir com o pai, porque tal implicava receber guloseimas das clientes e, além do mais, poderia passear, ver gente, ver o mundo, ainda que por via de um veículo de mercadorias.

O meu pai era comerciante de profissão, mais concretamente, caixeiro-viajante; assim como o tio Joaquim (nome fictício, porque com efeito, esta história tem o seu quê de real), que por acaso também era nosso vizinho. Mas, mais adiante já voltarei ao irresistivelmente atraente e sedutor tio Joaquim.

Era uma alegria empolgante as cobranças dos fiados, ao sábado. Na realidade eram uma aventura, sempre com hilariantes histórias subjacentes para contar. Com efeito, algumas contei, mas outras calei, porque penso que na altura ainda não tinha o discernimento necessário para as poder perceber… teria sido o caso das cobranças dos fiados do tio Joaquim, que terei acompanhado.

O tio Joaquim era um homem pacato, bonito, atlético, com um sorriso encantador; digamos que ele era o charme em pessoa. Acompanhá-lo nas ditas cobranças era sempre uma aventura, no mínimo estranha e até confusa para a minha cabecinha, na altura, porque enfim… não entendia a postura de determinadas clientes do tio Joaquim.

– Joaquim, não tenho aqui a carteira! Não queres subir para eu te pagar a factura?! – Questionou-o uma cliente ostentando um generoso decote algo desabotoado, mãos à cintura, voz arrastada e nasalada, e, como se não bastasse, olhos concupiscentes no alvo da “presa”.

– Não! Deixa lá!… Fica para o próximo sábado. – Responde o tio Joaquim evidenciando tiques de nervosismo inquietante. Olhando de soslaio para mim, puxa da caneta que a sua orelha travava e assinala a dívida com um X, no livro de fiados.

– Beijinhos Joaquim. Então quando é que lá vais! – Perguntava outra, com voz gritante e acenando, já com o veículo de mercadorias em andamento.

-Qualquer dia! – Respondia-lhe. – Esta é completamente doida! – Dizia irritado, entredentes.

– Meu caro Joaquim estou indignadíssima como ousa duvidar que pagarei! – Retorquiu outra trajando um tule transparente, agarradíssima ao seu submisso lulu branco, com ares de madame snob. Ele havia cada uma!… Quiçá esta última, não tinha onde cair morta?

Eram realmente muito estranhas as clientes do tio Joaquim. Mas o que me causava maior estranheza era a sua ignorância e indiferença perante mim; e logo EU, a pequena e singela sobrinha do tio Joaquim que o acompanhava na “árdua e difícil” tarefa das cobranças. Nada de guloseimas; tampouco piropos! Definitivamente, não gostavam de mim! Mas porque será? – Questionava-me.

Claro que só mais tarde viria a perceber aquelas inusitadas cobranças, a bem dizer, coercivas.

Agora, que o tio Joaquim orientava-se e bem, num quase bem-sucedido e profundo secretismo, ah!… Orientava pois, que nem o aventureiro Casanova. Era um eterno pinga-amor de porto aqui, porto acolá… de circunstância, claro!

Enfim… devaneios dos anos sessenta –, os meus!

– Chiu! Não era suposto contares esta história, cachopa!

 

Yesterday • The Beatles • Original • 1965

 

© Paula Pedro

 

 

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