Conta-ME Histórias, que EU Gosto!… Contas? #20 – VIDAS DE AMOR… ATÉ AO FIM!


Photo in Tumblr - Clark Gable and Vivien Leight

Photo in Tumblr – Clark Gable and Vivien Leigh

 

 

#20 – VIDAS DE AMOR… ATÉ AO FIM!

 

Era uma porta enferrujada. E ela entrou – como entrava sempre, desde há 69 anos, altura em que se casou com o malogrado Vicente.

A rotina era uma constante, mas não queria outra. Tampouco pensava em alterar sequer uma vírgula, ao seu modo de vida.

Florbela, o seu nome. Fora e ainda era uma mulher linda que irradiava beleza, apesar do cabelo já todo branquinho. Sempre trajara a simplicidade e um sorriso estonteante. Não tinha quaisquer mágoas ou ressentimentos com a vida, que lhe trocara as voltas, roubando-lhe os sonhos, mas não o amor.

Provavelmente, se fosse outra, consideraria a sua vida um triste infortúnio, uma espécie de condenação à subserviência.

Antes de se reformar, fora serviçal numa casa particular durante muitos anos. Os patrões adoravam-na, pela sua humildade, empatia, dedicação à família e ao trabalho. Nesses tempos, regressava a casa à tardinha. Vicente aguardava-a expectante, espreitando esporadicamente pela vidraça da janela, ou então, estava atento ao habitual rangido da porta enferrujada a abrir-se. Era ela a chegar!… A sua mui querida e adorada Florbela. Chegada a casa, iniciava então outra labuta: cuidar de Vicente, subjugado a uma cadeira de rodas, desde os 23 anos, por paraplegia, na sequência da queda de um freixo, sobre si próprio.

– É a vida menina!… Mas olhe que fomos muito felizes; e ainda conseguimos ter a nossa maior riqueza: o João, que é médico no Porto. Já nos deu dois netinhos! – Confessou-me com orgulho, ao jeito de quem alcança uma proeza inimaginável.

Florbela era assim: dava cor à vida, por muito sombria que ela parecesse. E a vida fluía, com alegria. Afugentava as “más línguas”, arrumando-as a um canto, quando ousavam questionar sobre como teria sido a sua vida sexual com o marido.

– Homessa! Cá nos arranjávamos, à nossa maneira!… E chega dessa conversa!

Subsistiram no tempo com parcos recursos económicos; e os poucos que existiam, tinham logo como destino, acautelar as necessidades básicas de Vicente e o curso de Medicina do filho, até este se tornar independente.

Era realmente muito gratificante ver aqueles dois juntinhos. Tamanha era a cumplicidade, amor e amizade.

Os anos passaram e a porta, essa, continua enferrujada; mas isso é irrelevante, ou provavelmente, é de propósito, por vontade de Florbela. O que é certo é que, para além da dita porta, subsiste um amor eterno, bajulado de boas e eternas lembranças.

O Domingo, é para Florbela  o dia mais empolgante da semana: É “dia de Nosso Senhor”- por isso vai à missa, logo pela manhã; é dia de pôr-se bonita e levar magnólias branquinhas, para a nova morada de Vicente, onde descansa em paz;  e, se o tempo for favorável, é dia de passear à beira-rio; respirar doces e ternas memórias vividas com Vicente. O rio era para ela uma fonte de emoções vivas, que lhe lembravam o sorriso do seu eterno amado.

Florbela. Um ser único. Inigualável. sempre com um sorriso de anjo e uma catrefada de histórias para contar.

É raro vê-la chorar, mesmo quando as saudades apertam. – “Um doce sorriso, faz melhor à alma e ao coração!” – Argumentava com ternura.

Não conheci mais nenhuma “Florbela”, mas sei que as há, ainda que com outros nomes. Para todas elas, fontes de amor incondicional, este, o meu tributo.

 

Stand by me – Seal (lyrics)

 

 

© Paula Pedro

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