CAROLINA, UMA MENINA NÃO DIFERENTE, MAS ESPECIAL!… (Conto Infanto-Juvenil)


Imagem I – extraída da Internet

 

#21 – CAROLINA, UMA MENINA NÃO DIFERENTE, MAS ESPECIAL!… (Conto Infanto-Juvenil)

 

Esta é a história de uma menina, a Carolina, que não tinha, nem queria ter amigos, pelo menos de carne e osso.

Sempre fora uma menina muito bonita, e agora, já contava com onze anos de idade. Era frequente fazerem elogios à sua beleza e, compararem-na com uma boneca Barbie, mas uma Barbie solitária, com um sorriso e um olhar tristes.

Tinha crescido no meio de muitos brinquedos, mas, daqueles que só dão para se brincar sozinho, ou mesmo que não dessem, fazia por isso mesmo, porque não gostava de partilhar nem brinquedos, nem brincadeiras com outras crianças; a menos que elas já fossem mais crescidas, para poderem ensinar-lhe coisas que ainda não conhecesse, e mesmo assim, era muito difícil.

Mas, Carolina sempre fora assim, – em casa, no infantário, na escola -, o que causava alguns problemas, não só a ela, mas também aos outros que com ela lidavam; por isso, desde há alguns anos que ela ia todas as semanas a uma consulta com uma senhora psicóloga, para conversar, jogar, pintar, escrever, e até, representar uma espécie de teatros com histórias de faz-de-conta.

E, tudo isto, para se conseguir que, aos poucos, permitisse e aceitasse que as outras crianças se aproximassem dela, nem que fosse para um simples “olá!”.

Sim! Infelizmente acreditava-se que Carolina, apesar de ser muito inteligente e esperta, tinha um problema com um nome esquisito: um tal de Síndrome de Asperger, que é uma espécie de autismo, mas mais suave.

Ou seja, dito de uma forma mais simples, para que se perceber melhor: nesta situação, há problemas para se relacionar com outras pessoas, há dificuldades para se comunicar, geralmente há movimentos e posições estranhas e, é frequente haver um interesse especial, que pode tornar-se uma ideia fixa (obsessão).

No caso de Carolina, havia a literatura; assim, de grosso modo, digamos que as letras tinham muita importância para ela e, ocupavam-lhe a mente, conseguindo decorar, sem grande esforço, textos e mais textos dos mais variados autores.

Todavia, Carolina já começava a dar alguns sinais de estar a melhorar. Como? Repare-se:

Actualmente os seus melhores amigos eram aparelhos informáticos, – computador, tablet, consola de jogos, eBook, CD, pen -, e, livros; aliás, pilhas de livros. A eles dedicava o seu tempo livre, não querendo outros, que a obrigassem a sair da posição de sentada.

Curiosamente, gostava do ar livre, dos dias de sol, do azul dos céus, das árvores, das flores coloridas, do chilreio dos passarinhos… enfim, gostava das cores, dos sons e dos aromas da Natureza. Por isso, gostava que a levassem ao Parque Verde da cidade.

Os pais da Carolina, sempre muito atentos e preocupados com ela, não tinham mãos a medir, e, mais por ela do que pelos outros filhos, faziam o que fosse preciso para ajudá-la, porque ela, não sendo uma criança diferente, era porém, especial.

Havia que aproveitar ao máximo todas as formas de evitar que Carolina se isolasse, e realmente, os passeios e piqueniques no dito parque de cidade, eram actualmente a melhor escolha, uma vez que era algo que ela gostava muito.

Umas vezes ia com o pai, e, outras, com a mãe. Não aceitava que mais ninguém a acompanhasse, senão era birra com gritaria, na certa.

No parque, caminhava de mão dada, e esta, sempre bem apertada; talvez por medo de se perder de quem a levava. Às vezes, lá libertava a mão, – porém, a medo -, quando queria observar alguma coisa mais de perto, mas sempre sem perder de vista a posição de quem a acompanhava. Mas perdia,… às vezes perdia-se nos seus pensamentos, e, quando regressava à Terra, olhava assustada em seu redor, em busca do seu salvador: o querido pai, ou a querida mãe.

A manta de trapos era-lhe indispensável para se fazer piqueniques, ler e jogar com alguns dos seus melhores “amigos” que era possível transportar – o tablet e livros -; descansar sem fazer nada? Isso, nunca! Falar? Só se precisasse mesmo muito, e, nesse caso, sempre com palavras difíceis e ares de sábia. Observar? Ah! Isso sim!… Observava fosse o que fosse, nem que fosse uma simples folha a abanar, à mercê do vento.

Carolina era muito dada a rotinas que dificilmente se conseguiam alterar, mesmo por via de um qualquer imprevisto. Assim, praticamente tudo obedecia a um ritual, com tempos muito bem definidos e controlados, e, o simples passeio ao parque não era excepção.

Primeiro que tudo, tinha que ser o piquenique, que sinalizava apontando o dedo para o chão, num qualquer espaço verde do seu agrado.

– Aqui está bem! – E repetia a frase várias vezes, num tom alto, sem desviar o olhar do chão. A verdade é que não conseguia olhar nos olhos de ninguém enquanto falava, e, interessava-se pouco pelo que os outros diziam; por isso, era-lhe mais fácil decidir sozinha.

– Trouxeste os alimentos à base de frutos vermelhos? – Perguntou à mãe, que era quem a acompanhava desta vez.

– Sim, princesa. – Respondeu-lhe a mãe, sorrindo, ao recordar o pedido que Carolina lhe tinha feito, de hoje terem que ser aqueles alimentos, e não outros.

– Muito obrigada pela atenção. – Retribuiu com formalidade e alguma frieza, como se a mãe fosse uma estranha.

Depois do piquenique, habitualmente seguia-se o tempo de leitura; pelo que, sentada na manta de trapos, com as pernas entrecruzadas, dedicava com obsessão, exactamente trinta minutos, – e nem mais um segundo -, ao tablet e, a um ou outro livro, cuja leitura devorava.

Durante esse tempo cronometrado em que estava concentrada, era habitual Carolina ter comportamentos estranhos como: coçar a cabeça, ter tiques com os dedos, como se estivesse a contar dinheiro em notas, ou algo do género; e também tiques faciais não usuais, como mexer a mandíbula (queixo), para um lado e para o outro, e, para cima e para baixo.

– Carolina tens mesmo que fazer esses movimentos? – Ousou perguntar-lhe a mãe, desta vez, em jeito de chamar-lhe a atenção, e não propriamente, em género de desconsolo.

– Não sei! – Retorquiu-lhe num tom muito alto, a sacudir a cabeça entre mãos, fazendo denotar uma certa angústia, pelo comportamento que não sabia explicar; apenas sabia que era algo que não conseguia controlar.

Felizmente que o cronómetro, entretanto deu sinal, dando por terminada a leitura, ainda assim, Carolina ficou imóvel durante mais uns minutos. Parecia estar ausente, completamente absorvida pelos seus pensamentos.

De repente, eis que se coloca de pé de forma desengonçada e, com voz frenética, mas decidida, diz:

– Está na hora! Vamos lá!

Mais precisamente, era chegada a hora do contacto com a Natureza, o tal passeio pelo parque que geralmente durava duas horas. Às vezes durava mais um pouco; outras vezes menos, consoante o que encontrasse pelo caminho, e que lhe despertasse maior ou menor atenção.

Carolina não praticava nenhum tipo de desporto porque tinha dificuldade em coordenar movimentos. Se corresse, era num ritmo estranho e, agarrar uma bola, era-lhe algo muito difícil. De maneira que, caminhar, ainda que com alguns movimentos pouco coordenados, era a melhor opção.

Permitia alguns jogos, desde que não tivessem muitas regras, pois não as entendia; acabava quase sempre por impor as suas próprias regras, e assim, ganhava sempre. Talvez por isso, preferia brincar sozinha.

O jogo da “caça ao tesouro” era dos seus favoritos, seguindo ao pormenor cada pista fornecida em mapa, até dar conta do bendito e escondido tesouro, o que era sempre uma alegria empolgante com risos e mais risos, sempre exagerados.

Claro que os pais a felicitavam pela conquista, batendo palmas e elogiando-a:

– Bravo Carolina! Conseguiste descobrir o tesouro em tempo recorde! – Disse-lhe a mãe, com orgulho e emoção.

Agradeceu, como aliás, agradecia sempre: com grande formalidade, manifestando dificuldade para perceber o quanto felizes os pais ficavam por vê-la a divertir-se. Provavelmente, nem ela tinha a noção que estava a divertir-se, dada a sua dificuldade em identificar os seus sentimentos, e, os dos demais.

Carolina gostava de colher frutos e vegetais na Quinta Pedagógica do parque; por isso, era rotina levar-se uma cesta de verga, para os transportar, claro; e também, algumas moedas para os comprar.

O critério de escolha dos frutos e vegetais variava, por cada ida à quinta: umas vezes, eram escolhidos pelo cheiro, outras, pelo tamanho, outras, pela cor, enfim,… o que entendesse!

 

Imagem II - extraída da Internet

Imagem II – extraída da Internet

 

– Hoje vamos levar desta cor e, deste tamanho! – Afirmou, mostrando na mão umas quantas physalis – um fruto invulgar, semelhante a uma pequena baga dourada, com sabor ácido e adocicado, protegida por uma espécie de pequeno capuz.

– Ui! Não vai ser fácil Carolina! – Afirmou-lhe a mãe, espantada e com ares de pouca fé numa colheita farta.

Não entendendo o comentário, Carolina encolheu os ombros, e, lá continuou na sua colheita selectiva, mas sempre tendo em atenção o tempo cronometrado para a tarefa.

E o tempo expirou. A mãe tinha adivinhado: desta vez a colheita tinha sido muito fraca, pelo que saíram da quinta mais leves do que o previsto; no entanto, revelou-se muito útil para Carolina, que ficou a saber tudo e mais alguma coisa sobre o dito fruto, através das explicações do funcionário que cuidava da quinta. Certamente mais tarde, em casa, iria esgotar a pesquisa sobre o assunto, através da internet.

À saída da quinta havia um fontanário que deitava água muito fresquinha. Com sede, ou não, era hábito Carolina, ainda que desajeitadamente, aproximar-se das várias bicas para beber. Dispensava qualquer ajuda para as alcançar, tão pouco se importando se resultasse molhar-se; às vezes o objectivo era mesmo esse: o prazer de mexer na água a correr e encharcar-se; ou mesmo só, vê-la e ouvi-la correr por entre os dedos, perdendo-se em pensamentos.

Entretanto, o prazer do momento é interrompido por uma animada algazarra, vinda não muito longe dali, do fontanário. Catarina olha em seu redor, e avista então, um grupo de crianças vestidas com trajes sugestivos de séculos passados; uma delas trajava uma espécie de armadura enferrujada.

Habitualmente fugia da confusão e do barulho, mas aquele cenário invulgar despertou-lhe a atenção, pelo que, pegou na mão da mãe, puxando-a para caminharem na direção da suposta festa. Se é que era uma festa! Ou seria uma feira medieval?

– Porque estás assim trajado com essa armadura enferrujada? – Ousou perguntar Carolina, a uma das crianças fantasiadas.

– Ah! Olá! Eu sou o João, Estamos aqui no parque com as nossas monitoras, a ensaiar uma peça de teatro. Quando estiver bem, irão filmá-la e enviá-la para uma Associação. E tu? Como te chamas? Estás a gostar do nosso ensaio? – Respondeu-lhe João, o personagem até aqui desconhecido.

Em vez de responder à questão, Carolina reteve os pensamentos nas palavras que acabara de ouvir: “a ensaiar uma peça de teatro”; “enviá-la para uma Associação”…

– Olá! Estás aí? – Acenou João com ambas as mãos a Carolina, para que ela despertasse da sua ausência.

– Ah! Estou!… Estou pois! Claro que estou! – Afirmou, repetindo com algum nervosismo que não conseguiu disfarçar.

– Do que trata a peça de teatro? E que Associação é essa? – Perguntou Carolina a João, sem quaisquer rodeios.

– Olha, como é mesmo o teu nome? – Insistiu João.

– Carolina. – Respondeu secamente, olhando de banda.

– Olha Carolina, não sei muito bem responder-te, mas penso que é para uma tal APSA – Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger. – Sabes? Alguns de nós, tem esse problema, e tanto quanto sei, a peça de teatro é uma forma de nos ajudarmos uns aos outros, pelo convívio, pela partilha; o que passa por nos aceitarem tal como somos e terem uma boa dose de paciência connosco. Percebes? – Tentou explicar-lhe João, da melhor forma possível.

Em vez de agradecer a resposta – o que causou alguma estranheza a João -, Carolina voltou a insistir: – ainda não respondeste! De que trata a peça de teatro?

– Ah! Desculpa!… Trata a história do Cavaleiro da Armadura Enferrujada. É uma linda história que tem uma moral sobre… – afirmou João, que entretanto foi interrompido por Carolina:

– Não percas tempo a explicar-me! – Ordenou de imediato, levantando a mão para que João parasse. – Eu sei a história de cor. Essa, e muitas mais. – Acrescentou, mostrando alguma impaciência, porém sem ponta de vaidade, por tal capacidade.

– Sabes a história de cor? Mas isso é óptimo! Poderias entrar na peça; só terias que ensaiar as expressões que não se falam. Achas que serias capaz? – Perguntou-lhe João, com natural entusiasmo.

Entretanto, aproxima-se deles uma menina trajada de pomba. – Olá! Eu sou Rebecca, a pomba que orienta o cavaleiro nos trilhos para os diversos castelos; mas o meu nome verdadeiro é Inês.

– Sei bem quem é a pomba Rebecca, e o que faz na história; assim como sei quem é Esquilo – o esquilo, amigo e companheiro -, e, Merlim – o mago, que aparece e desaparece de vez em quando, sempre orientando o cavaleiro no caminho da verdade, até ele conseguir ver-se livre, aos poucos, da armadura ferrugenta que o impedia de cuidar-se e relacionar-se com os outros, com o mundo. Devem ser aqueles ali adiante, vestidos como tal, não? – Afirmou secamente, apontando, sem olhar para os olhos de ninguém.

João dá uma cotovelada a Inês e diz-lhe baixinho ao ouvido, colocando a mão a esconder a boca: – ele é dos nossos! Deu-lhe para saber histórias de cor.

– Ah!… E então? Queres juntar-te a nós? Questionou Inês entusiasmada, tentando disfarçar, mas mal, um certo pasmo.

– Não sei. Tenho muita dificuldade em representar emoções, porque é-me difícil compreendê-las; também custa-me muito imaginar colocar-me no lugar de quem quer que seja. – Respondeu cabisbaixa, já começando a mostrar alguns tiques com os dedos e, a coçar-se.

– Oh! Deixa lá isso! Também nós temos alguns desses problemas, e, outros, até bem mais graves. Desculpa, não me apresentei: sou o Pedro. – Disse, aproximando-se, o tal personagem trajado de esquilo.

– Olha, poderíamos trocar os papéis, Eu passaria a ser Merlim, o mago, e tu passarias a ser o cavaleiro, que tem muitas intervenções com fala, para mim, difíceis de decorar; e também tem muitas expressões sem fala, e nessas, poderíamos ajudar-te. Que dizes? – Indagou João, na esperança de ouvir um sim.

– Não sei. Tenho que falar com os meus pais. – Respondeu Carolina, olhando para o infinito do céu. E adiantou: – deixem-me os vossos contactos. Logo, logo, dar-vos-ei uma resposta. – Trocaram então, os contactos.

De seguida, Carolina dirigiu-se à mãe, que com emoção, conversava com outras mães que tinham vindo ao parque para assistir ao ensaio, e, comunicou-lhe que estava na hora de regressarem a casa.

De volta à casa, Carolina não disse uma única palavra. Na verdade sentia-se nervosa, inquieta; os tiques eram mais frequentes, e por isso mesmo, impossíveis de passar despercebidos; quando assim era, preferia isolar-se no seu quarto, o espaço que lhe transmitia toda a calma e segurança que precisava.

Felizmente que a mamã se apercebeu do seu estado aflitivo e foi ter com ela ao quarto.

– Posso entrar, filha?

– Sim! – Respondeu com uma lágrima no canto do olho, que não conseguiu disfarçar.

Estava sentada na cama. Já tinha tomado banho e vestido um dos inúmeros pijamas com motivos cor-de-rosa, a sua cor favorita. Na realidade, no seu quarto predominava a cor rosa, não permitindo ali outras cores; exceto a de Teddy, o seu querido e antigo ursinho de peluche, que era castanho claro e tinha um grande laço vermelho ao pescoço.

Com Teddy ao seu lado, e música clássica de fundo, – que a mamã punha a tocar quando era mais pequenina, para mais facilmente adormecer -, segurava entre mãos o livro “O Cavaleiro Da Armadura Enferrujada”, que não estava a ler; apenas o segurava, perdida nos seus pensamentos.

– Porque choras Carolina? – Indagou a mãe, preocupada.

– Não sei. Tenho medo! – Respondeu.

– Mas estás com medo de quê? – Insistiu a mãe, agora, ainda mais preocupada. E continuou: – Anda! Fala com a mãe! Sabes bem que não estás sozinha. Nós estamos aqui, também para te ajudar naquilo que precisares.

Não teve dificuldade em expressar à mãe o que se tinha passado com os novos amigos, conhecidos no parque. Se fosse um estranho, não se expressaria tampouco, porque normalmente ignorava a pergunta: – “O que é que se passa contigo?”.

A mãe reagiu com euforia, ao convite que tinham feito à filha, pois a concretizar-se, significava que Carolina poderia melhorar a comunicação e a relação com os outros, enfim…, com o mundo!

– Mas parece-me um convite irrecusável; um desafio que te pode ajudar. O que pensas fazer, filha? – Perguntou apreensiva, a mãe, sabendo de antemão que seria algo nada fácil para Carolina.

 

Imagem III, extraída da Internet

Imagem III, extraída da Internet

 

– Não sei mãe. Abraça-me com força! – Suplicou.

E continuou falando, envolta naquele abraço profundo, com o rosto encostado ao peito da mãe, que lhe ia fazendo carícias na cabeça: – Sabes bem que não me é fácil entender emoções pela cara das pessoas, ou pelos seus gestos; e também sabes bem que não percebo quando falam comigo a sério, a brincar ou a ironizar!… Elas também não me entendem, nem fazem um esforço por isso mesmo, percebes? A verdade é que estou cansada de desiludir aqueles que tentam ser meus amigos, e, também estou cansada de os perder.

– Mas qual é a tua vontade, Carolina? O que é que desejas mesmo, apesar de tudo? – Voltou a insistir a mãe.

– A minha vontade mamã é… aceitar o papel, mas, tenho medo. Ouço vozes que vêm de dentro da minha cabeça a dizer que não serei capaz. Tapo os ouvidos com força, mas elas não se calam, e repetem vezes sem conta: – “ Não és capaz!”, “Não és capaz!” – Percebes? – Questionou, escondendo a cabeça entre os seus joelhos.

– Percebo Carolina. Mas tu és forte. Irás conseguir derrotar esses medos. Se aceitares representar o papel, terás todo o nosso apoio! – Reforçou a mãe, na esperança de um sim não forçado.

– Então está bem. Tu e o papá acompanhar-me-ão, à vez, aos ensaios e, se eu tiver dificuldade numa ou noutra expressão, vocês ajudar-me-ão. Está bem? – Referiu, já esboçando um sorriso.

– Vá! Agora vai! Preciso de rever algumas partes do livro e, enviar um e-mail aos meus novos amigos, a confirmar-lhes que aceito representar o papel do cavaleiro, na peça de teatro. – Finalizou, já com o entusiasmo de quem não tem tempo a perder.

Os dias passaram, e, os ensaios começaram.

Nos dias em que o estado do tempo não era favorável, os ensaios decorriam num espaço emprestado: o anfiteatro da Casa da Cultura, do município. Esses dias eram um pouco mais stressantes para Carolina, por causa dos barulhos e da concentração de pessoas no mesmo espaço; coisas que a incomodavam bastante e a desconcentravam.

Carolina foi muito bem acolhida pelo grupo de teatro e, todos sem exceção faziam os possíveis para que se sentisse à vontade, e não forçada ao que quer que fosse.

Além do mais, estava sempre presente uma senhora que era professora de expressão facial e corporal, que intervinha sempre que necessário, para corrigir ou melhorar algumas expressões e posturas que não estavam a ser bem conseguidas, e que alteravam a mensagem que se pretendia transmitir do texto.

Carolina era quem sofria mais reparos, o que era normal, pois o personagem que representava – o cavaleiro -, era o protagonista da peça de teatro. Todavia, os reparos eram sempre feitos com a maior das delicadezas, pois todas as pessoas envolvidas no evento sabiam que ela sofria do Síndrome de Asperger.

João, Inês e Pedro eram incansáveis com Carolina, prestando-lhe toda a atenção necessária e até, aquela que ela pedia, independentemente das suas intervenções nas conversas, às vezes, não fazerem sentido, e até, serem despropositadas relativamente ao assunto que se estava a falar no momento; que é como quem diz: estando-se a falar sobre um determinado tema, não era invulgar Carolina interromper de repente, para falar de outro, que nada tinha a ver com o anterior.

Num dos cenários, era suposto o cavaleiro chorar de arrependimento, por ter desprezado as chamadas de atenção de Juliet, – a sua bela esposa -, e de Christopher, – o seu amado filho -, mas não o estava a conseguir da melhor forma; ou seja, Carolina não estava a conseguir encarnar o personagem nesta tarefa, o que a deixou com os nervos à flor da pele. Ficou num tal estado de nervosismo que rapidamente chegou a um choro compulsivo, com soluços à mistura.

A plateia reagiu, levantando-se das cadeiras e batendo palmas.

– Bravo! Bravo! – Ouvia-se em gritos, do fundo do anfiteatro.

De imediato, o cavaleiro, ou seja, Carolina, trajando a sua armadura enferrujada, desata a correr desajeitadamente, fugindo do palco para os bastidores. Porque estariam as pessoas a bater palmas, se ela estava a chorar a sério? – Pensou.

O pai de Carolina que assistia próximo do palco apercebeu-se logo do equívoco, porém não interveio, porque a professora de mímica e os amigos de Carolina foram de imediato a correr na sua direção, para a tranquilizar e desfazer a confusão:

– Carolina, as pessoas não aplaudiram o choro da tua angústia. Aplaudiram sim, o choro da angústia do cavaleiro, e como o fizeste tão bem, emocionaram-se, e decidiram aplaudir-te. Percebeste? – Justificou-se a professora, tentando fitá-la nos olhos, o que era praticamente impossível, pois Carolina não permitia que em circunstância alguma, a olhassem nos olhos.

Carolina continuava a soluçar, mas já não chorava. À medida que ia respirando mais calmamente, reorganizava as ideias, tentando fazer nova interpretação do que tinha acabado de suceder.

Parecia começar a entender. Afinal de contas, iria haver muitas cenas de choro, pois o cavaleiro para se ver livre da sua armadura enferrujada, iria sofrer muitas perdas, com arrependimento – por ter sido vaidoso, egoísta, injusto, invejoso e outras coisas que tais -, até encontrar o caminho da verdade, e bem assim, encontrar-se a si próprio; e então, definitivamente livre dos maus sentimentos, simbolizados pela armadura enferrujada., estaria de fato liberto e leve. Não mais voltaria a vestir a armadura. E voltaria a chorar sim, mas de alegria, por ter conseguido libertar-se para a vida, para o amor a si próprio e aos outros.

Seria também difícil representar um choro de alegria? – Pensou. Logo se veria; não tinha pressa na escalada. O mais importante agora, era compreender as emoções e aprender as expressá-las, fosse em que cenário fosse; até na vida real!

Assim, decorar a literatura, já não lhe parecia fazer qualquer sentido, passando a ser bem mais interessante compreendê-la, e, sentir a sua mensagem.

Os pais de Carolina estavam radiantes com o seu envolvimento na peça de teatro. Achavam-na mais entusiasmada, mais feliz e com mais facilidade na comunicação.

Na escola, também parecia haver progressos: na concentração, na atenção e até, no relacionamento com os colegas.

– Quando for maior, quero ser atriz! – Terá escrito numa composição da disciplina de português, que leu em voz alta na sala de aula, o que, diga-se de passagem, deixou muitos colegas e até o professor, surpreendidos.

Os que lhe eram mais chegados não estranharam, pois já estavam a par da novidade, e esses, felicitaram-na: – Força Carolina; tu vais conseguir! – Disseram-lhe com entusiasmo.

Os outros, os que não simpatizavam com ela e que não a toleravam, troçaram: – Tu? Atriz? Como, se vives no mundo da lua? – Mas Carolina fingiu não se importar; desta vez, em vez de fugir a chorar, decidiu ali ficar, e, de rosto erguido, mostrar que ignorava tais comentários que, como sempre, pretendiam apenas humilhá-la.

Ainda assim, não foi tarefa fácil, pois sentiu-se a tremer por dentro. Mas o que interessa é que, pela primeira vez, tinha conseguido mostrar-se forte, numa situação real, e, o mais importante: sem a ajuda de ninguém.

Os ensaios para a peça de teatro continuaram a decorrer durante mais uns meses, pois os dias eram mais pequenos, e, a chegada do Inverno, com frio e chuva, dificultava a concretização dos ensaios; ou seja, nem sempre todos podiam estar presentes, algo que irritava imenso Carolina, pois ela, desse lá por onde desse, nunca faltava. – Oh não! O João e a Inês não virão?! Mas assim, não vamos poder ensaiar. – Lamentava-se, com ar triste.

O tempo passa. Finalmente é chegado o tão publicitado “Dia D”, – O dia da apresentação da peça de teatro -, precisamente, no dia do Ano Novo.

Nesse dia a azáfama foi grande: a montagem dos cenários; os novos trajes, agora feitos a preceito, pareciam reais; as câmaras de filmar… todos estavam eufóricos, ainda que, algo nervosos. Carolina sorria radiante e estava mais agitada, não deixando por isso, esconder um certo nervoso miudinho.

A alegria era de fato contagiante. Naquele dia, mais do que nunca, todos estavam empenhados no sucesso da peça de teatro.

Para grande surpresa de todos, o anfiteatro esgotou a sua lotação, provavelmente devido aos apoios publicitários, e outros, dos que ajudaram à realização do evento.

Como não podia deixar de ser, os convidados principais – uns senhores que vieram da APSA, a tal Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger -, a quem era dedicada a peça de teatro, estavam presentes, integrando os locais mais próximos da plateia.

A apresentação da peça superou as expectativas de todos, por ter sido um enorme sucesso.

– Bravo! Bravo! Bravo! – Ouvia-se repetidamente, entre fortes batidas de palmas que pareciam nunca mais acabar.

 

Imagem IV - extraída da Internet

Imagem IV – extraída da Internet

 

O filme da peça também veio a revelar-se um sucesso e, por esse motivo, Carolina foi convidada para integrar o grupo de jovens da Casa Grande da APSA que fica situada em Benfica – Lisboa. Mas claro, tal decisão passaria pelo apoio e consentimento dos seus pais.

– Mas o que é a Casa Grande? – Questionou Carolina, intrigada? Os pais, por sua vez, também estavam, não menos intrigados.

Os senhores da dita Associação responderam-lhes que a Casa Grande era um projeto que dinamizava atividades, programas de apoio às pessoas com Síndrome de Asperger, às suas famílias e à comunidade (escolar, empresarial, etc…).

Lá, na Casa Grande, havia um espaço para os pais, designado: “Tempo de Pais”, que visava ajudá-los a lidar com as questões do dia-a-dia, da pessoa com a Síndrome de Asperger. Se o quisessem, havia também a possibilidade de serem voluntários.

O voluntário da APSA era alguém que vestia a “camisola”, que se entregava, que se dava, que partilhava aquilo que era e sabia, ao serviço da causa, da missão que movia a APSA, que era: “promover o apoio e a integração das pessoas com Síndroma de Asperger, favorecendo as condições para uma vida autónoma e mais digna”.

Claro que os pais aceitaram radiantes, em participar em tão nobre causa. E Carolina, por sua vez, adorou a ideia.

Futuramente os passeios ao Parque da Cidade seriam certamente menos frequentes, mas nunca esquecidos, pois foi graças a eles que Carolina chegou onde chegou.

E os inseparáveis “amigos” digitais? Esses? Pelo visto, passaram a ser coisa secundária. Afinal as pessoas eram bem mais importantes do que o mundo virtual.

Atualmente Carolina integra o núcleo da APSA e também, pela popularidade e sucesso conseguido na peça de teatro que representou, participa em telenovelas portuguesas, desempenhando papéis interessantes que apelam à inclusão social das pessoas portadoras de deficiência.

Carolina é hoje uma criança mais feliz, determinada em ajudar outras a também o serem, criando condições para uma vida autónoma ou menos dependente de terceiros, e acima de tudo, para uma vida mais digna.

 

História ficcional

 

 

 

© Paula Pedro

 

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