Conta-ME Histórias, Que EU Gosto!… Contas? #25 – VIAGENS A SÓS… À PROCURA DE NÓS PRÓPRIOS!


Data da foto: 2010 Julia Roberts no filme

Data da foto: 2010
Julia Roberts no filme “Comer, Rezar e Amar”, do diretor Ryan Murphy.

 

#25 – VIAGENS A SÓS… À PROCURA DE NÓS PRÓPRIOS!

Querida Melanie,

Cá estou eu, de saída para umas tão almejadas e merecidas férias; não só para suprimir este burnout em que me encontro, mas também, e, fundamentalmente, para fazer o luto da minha separação do Javier. Na verdade, preciso de arrancá-lo do meu peito e do meu pensamento, o quanto antes… e, começar de novo outra vida, ainda que sozinha.

No fundo, acredito que espera-me uma vida melhor, e por isso, vou atrás dela. Mas, tu sabes como eu sou: uma lutadora inata. – You Know that, don’t you?

Hoje, vésperas de partir para Itália, tive a possibilidade de rever aquele filme que tanto gosto. Tu sabes qual; aquele do best-seller “Comer, Orar e Amar”. Não imaginas como me revejo no papel da protagonista, Elizabeth Gilbert – interpretado pela actriz Julia Roberts -. Acho fantástica a forma como ela se reencontra com ela própria, mediante alguns mecanismos compensatórios, como: viajar; conhecer outras pessoas, outros sorrisos, outros abraços amigáveis, outras culturas; outros prazeres gastronómicos – tampouco importando o resultado de uns quilitos a mais e consequentemente, a necessária renovação do stock de jeans, do armário -; o encontro ocasional com uma vertente espiritual que veio a transmitir-lhe paz interior e equilíbrio; e, de forma acidental, de todo inesperada, a redescoberta do amor.

Acredita! Preciso voltar a encaixar o meu coração, que anda há demasiado tempo fora do peito, e, como se não bastasse, ainda de mãos dadas com quem já não o merece.

O que vale é que o coração é um músculo; se o treinarmos convenientemente para resistir à dor, à tristeza e à decepção, ele acaba por aprender. Pode demorar mais tempo, mas aprende a defender-se, a ser mais forte, a bater com mais frequência apenas quando vale mesmo a pena; e, mais lentamente, quando a vida nos prega um susto, como querendo alertar-nos que é chegado o momento de pararmos de superar os nossos limites.

Ainda faltam umas horas para o meu voo, de maneira que vim até aqui, ao Parque das Nações, desfrutar desta magnífica vista sobre o Rio Tejo, observar, meditar e escrever-te este e-mail, – entre goles de um delicioso sumo de laranja natural -, para te tranquilizar, porque como amiga de longa data que és, sei que estás preocupada comigo; mas não te preocupes… a sério! Tudo irá correr bem. Aliás, não poderá correr de outra forma: – Positive thinking is what it takes! Right?

Nem imaginas os casais em crise, por aqui. Vê-se rapidamente quando um casal está em crise. Bastam dois-três minutos, disfarçadamente desatentos, numa esplanada, e, topa-se logo:

Ela está de cara anímica, e ele, com ar enfadado ou alheado. Comunicam por monossílabos. Um deles caminha sempre dois ou três passos à frente. Em simultâneo, olham para lugares díspares: ela, para as montras; ele, dissimuladamente, para as outras mulheres. Paira no ar tristeza, afastamento, alheamento. São casais cansados que, quiçá, atravessam uma crise passageira, ou, no pior dos cenários, tornaram já este, o seu modus vivendi, resignando-se a um estado de infelicidade que é mútuo.

Fico perplexa com esta deplorável condição de resignação. Tira-me do sério, percebes?

Penso que pior do que ter o coração como não queremos, é tê-lo onde não queremos de todo, ao lado de um alguém que [já] não amamos; ou então, tê-lo longe, noutro local, em pensamento, junto de um outro alguém com quem efectivamente gostaríamos de estar, mas que não estamos, por não ser possível.

Penso que pior do que adormecer só, é dormir ao lado de alguém que reconhecemos [já] não amar.

Penso que pior do que ir de férias sozinha, é tolerar ir de férias com alguém que apenas suportamos, constrangidas pela inércia, o medo da solidão e a cobardia de mudar uma vírgula a uma vida doentia que se tem consciência não querer mais.

Em suma, é isto mesmo o que penso: prefiro mil vezes só, do que mal acompanhada.

O amor dá muito trabalho e, às vezes, um casamento pode ser mesmo o cabo dos trabalhos, como foi o meu.

Bem, entretanto está quase na hora do meu voo. Vou de seguida para o aeroporto, aqui ao lado, na Portela de Sacavém.

Irei dando notícias, de onde estiver. Preciso de ir… para ver se me [re]encontro.

Beijinhos desta tua amiga, com muitas saudades.

Andrea

História Ficcional

 

© Paula Pedro

 

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