DOENÇA ONCOLÓGICA; afinal, uma prioridade ou uma contingência?


Paula PedroOlá caros leitores!

Abordar-se o CANCRO, seja em que perspectiva for, é supostamente algo nada aprazível, pois tem subjacente uma conotação negativa; metaforicamente falando, um “bicho papão” que pode condicionar não só a qualidade de vida, como a longevidade e, em último caso – “Deus nos livre”, não é verdade?! – conduzir à própria morte do indivíduo, o terrível e tão temido desfecho, após um conturbado período de crise, onde foram prementes emoções e sensações vividas intensamente, algumas de forma acutilante; todavia, estou em crer, mediante a minha experiência profissional (e mesmo fora dela!) no contacto com o doente oncológico, que normalmente impera neste último a missiva:

“A ESPERANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE”!

– Sim! É verdade! E não venham cá com tretas a contestar, porque a realidade é que, perante tal infortúnio, as pessoas: familiares, amigos e fundamentalmente o afectado, agarram-se ao que quer que seja, que os faça acreditar que a cura, a remissão e bem assim, a esperança de vida, é possível; porque enfim (!) … o normal é abraçarmos a vida, ainda que tenhamos consciência que detemos um estilo de vida pouco abonatório; na certeza, porém, de que tudo faremos, seguramente, para reverter hipotéticos sinais de alarme, indicativos de que algo não está bem com a nossa saúde, e, bem assim, passa a tornar-se uma prioridade modificar comportamentos de risco, sejam lá eles quais forem! … Se bem que A MUDANÇA, poderá ser um processo nada fácil de gerir, principalmente se existem vícios nefastos subjacentes; ainda assim, há quem não consiga libertar-se de tais vícios, como o tabagismo, entre outros!… – Certo?

A realidade é que Cancro já é a primeira causa de morte em Portugal, e a prova está à vista, a avaliar pelos alarmantes dados estatísticos disponíveis: morrem anualmente em Portugal, cerca de 30.000 pessoas vítimas de cancro, número que já superou os índices de mortalidade das doenças cardiovasculares. E, a dar consistência a esta constatação, temos a opinião sustentada de Vitor Veloso, secretário-geral da Liga Portuguesa contra o Cancro, que reitera, e muito bem, ser ” a doença do século XXI, indiscutivelmente”.

Ninguém aceita a morte de ânimo leve, a menos que a deseje, claro! … Mas isso é outra questão que não pretendo esmiuçar neste contexto, muito embora a EUTANÁSIA seja uma OPÇÃO DIGNA para alguns, particularmente para os NÃO OBJECTORES DE CONSCIÊNCIA … claro está que teríamos aqui “pano para mangas”, de sobra, para mais um artigo!

– Ora bem! Não é objectivo deste artigo vir com lições de moralismos acerca da importância da manutenção de um estilo de vida saudável, a prática de uma alimentação equilibrada e de exercício físico regular, a vigilância médica periódica, o rastreio precoce, etc. … … porque a bem dizer, o avanço das tecnologias de informação, e bem assim, dos média, como que veio proporcionar que as pessoas estejam, não digo plenamente, mas, melhor informadas, e nesse sentido, ajam em conformidade, de acordo com a sua consciência e meios disponíveis

– E porquê consciência? E porquê meios disponíveis? – Poderiam os caros leitores questionar!

Antes de responder a estas questões, não posso descurar a importância fulcral da PREVENÇÃO PRIMÁRIA, porque na verdade, ela é digamos que o alicerce fundamental no combate ao cancro. Quer isto dizer que, apesar de toda esta esforçada, todavia inglória, onda informativa, a realidade é que os portugueses continuam a ignorar sintomas de cancro, e repare-se (!), são pelo menos 15, conforme se poderá esmiuçar neste link, a título de exemplo.

E é precisamente aqui que surgem as respostas às tais questões, anteriormente colocadas:

No que diz respeito à questão da consciência, perscruta-se um certo facilitismo ou quiçá (?), negligência, relativamente à persistência de determinados sinais e sintomas; e vá-se lá saber porquê?!… Tabu? Medo? Ou então adopta-se aquela teoria do “deixa andar, que isto passa”?!

Relativamente à questão dos meios disponíveis, aí é que “a porca torce o rabo”! Porque repare-se:

– Ai sim? Então como é que supostamente, as pessoas podem fazer a sua vigilância médica periódica e rastreio precoce?

É certo e sabido que os efeitos da crise são mais notórios do que nunca, pelo que, pode ser complicado para alguns – e, evoco os mais desfavorecidos ou fragilizados – uma deslocação ao Centro de Saúde, que pode distar sobremaneira da sua residência, … precisamente porque têm que pagar os transportes, a própria consulta, eventuais medicamentos e exames auxiliares de diagnóstico a realizar a posteriori, quiçá, até faltar ao trabalho?!

  • O próprio secretário-geral da Liga Portuguesa contra o Cancro, Vitor Veloso, sublinhou recentemente que a oncologia está subfinanciada e lamenta que “os sucessivos governos não invistam nesta área” – Prevenção – por não a considerarem politicamente atractiva.
  • Como se não bastasse, o presidente cessante da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), Joaquim Abreu de Sousa, afirmou recentemente que o tratamento de doentes com cancro “está no vermelho”  ao nível da assistência porque as Instituições estão “no limite”, tendo denunciado o adiamento de cirurgias oncológicas, imagine-se o descalabro alarmista (!): “devido à falta de camas”, factor que terá impedido 266 doentes de serem operados O cúmulo dos cúmulos, para nosso grande pasmo, porque não é para menos: segundo o oncologista, 10.000 das 35.000 camas oncológicas, estão no sector privado; por conseguinte, com acesso condicionado, isto é, direccionado para os mais endinheirados.
  • Para colmatar, o presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos e também, enfermeiro e professor adjunto na Universidade Católica Portuguesa, Manuel Luís Capelas, argumentou recentemente que “Metade dos doentes com cancro morre sem ter acesso a cuidados paliativos”, porque a referenciação dos doentes oncológicos graves para os Cuidados Paliativos e o acesso a uma Unidade e a uma Equipa com formação nesta área, pode ser um processo moroso, dado que  a lista de espera pode chegar aos 30 dias, e alguns doentes têm apenas uma esperança média de vida de 6 – 7 dias.

– Então mas afinal de contas, com o quê e com quem é que as pessoas podem contar?…

– Oh sr. Ministro da Saúde Paulo Macedo, então recentemente, e mais concretamente, em 26 de Janeiro último, destacou a necessidade de se apostar mais na prevenção do cancro e desde então, não implementou quaisquer medidas para além de reforçar a área da radioterapia e a área da cirurgia – por conseguinte, apenas o tratamento – e estritamente “nos Hospitais de Cancro e nos Hospitais Universitários”, pretendendo-se “evoluir para a concentração de especialidades” (!); têm de concentrar os cancros, consta! … – O quê? Resolver “centralizar os cancros” pode ser uma estratégia política equivalente a dar um tiro no pé,  porque lá está (!), a questão da acessibilidade aos tratamentos pode ser uma tremenda “cefaleia” para os que distam, por este nosso Portugal fora e Ilhas adstritas, dos “locais elite” contemplados!

Na minha modesta opinião ficaria bem menos oneroso ao Estado, a implementação de políticas saúde interventivas a nível dos CUIDADOS DE SAÚDE PRIMÁRIOS, visando a diminuição da incidência do cancro, a sua detecção precoce e, atrever-me-ia a acrescentar: a sua notificação obrigatória imediata ao Ministério da Saúde, mediante uma plataforma electrónica que inclua os laboratórios de anatomia patológica, no sentido de se sinalizar rapidamente todos os tipos de cancro que vão surgindo, possibilitar uma intervenção mais eficaz e eficiente e bem assim, se conhecer melhor a realidade nacional a este nível.

Todavia, parece que o cancro é mediado por contingências, sendo o seu tratamento uma prioridade depois de instalado … claro (!), nem outra coisa seria de esperar; ainda assim, o ideal seria apostar na sua PREVENÇÃO, porque há sim, determinado tipo de cancros cuja erradicação é possível mediante estratégias preventivas!

Mas isto sou eu a pensar. Sim! Sou uma pensadora, melhor dizendo: uma sonhadora. E este é mais um dos meus “registos de voz”, dos tais! … Um humilde desabafo de indignação.

Como sempre, até breve se Deus quiser.

Beijinhos.

 

Paula Pedro

 

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2 comentários a “DOENÇA ONCOLÓGICA; afinal, uma prioridade ou uma contingência?

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